O renomado escritor Maciel de Aguiar afirma que não foi consultado sobre a escolha de uma personagem do livro de sua autoria, Zacimba Gaba, pela gestão do prefeito Daniel Santana, o Daniel das Festas (sem partido), em edital da Secretaria Municipal da Cultura. E destacou que, se fosse consultado, “não daria autorização”.
A Secretaria homologou recentemente, para publicação, a lista dos projetos premiados pela Lei Paulo Gustavo, edição 2023. Dois deles fazerem referência à personagem de um dos livros de Maciel de Aguiar. Em tom crítico a essa política pública, Maciel afirmou que “esses editais transformam artistas e produtores capixabas em mendigos e pedintes dependentes do estado”.
De acordo com nota da Prefeitura de São Mateus, para apontar os vencedores, a comissão julgadora, composta por cinco membros selecionados também por meio de edital, avaliou cada uma das propostas inscritas, “utilizando os critérios de julgamento previstos no edital da Lei Paulo Gustavo, tais como qualidade do Projeto, democratização de acesso e acessibilidade, capacidade do proponente e da equipe envolvida, adequação da proposta orçamentária e viabilidade do projeto, caráter multiplicador e ações afirmativas”.
A lista dos projetos premiados com as respectivas pontuações, bem como a de suplentes, está disponível no link: CLIQUE AQUI!
Das três linhas de participação, a 01 se refere a produções audiovisuais, com seis prêmios de R$ 50 mil e onze prêmios de R$ 20 mil; e a Linha 02 está voltada para capacitação, formação e qualificação no setor audiovisual, apoio a cineclubes, realização de festivais e mostras de produção audiovisual, com três prêmios de R$ 21.000,00. Nenhum concorrente obteve a pontuação máxima (100 pontos): a melhor nota foi 92,7, para um Projeto na Linha 03 – demais áreas culturais, que disponibilizou 20 prêmios de R$ 15 mil.
Entre os projetos audiovisuais da Linha 01 contemplados com R$ 20 mil no edital da Secretaria Municipal de Cultura está o de Rafael Tezolin Coutinho, sobre Zacimba Gaba, princesa da nação Cabinda, em Angola, que foi trazida escravizada da África para o Brasil em 1690. Já entre os projetos de difusão e produção do setor audiovisual e demais áreas culturais da Linha 02, foi contemplado projeto de Deivid William Martins, com a oficina de animação Viva Zacimba!, com montante de R$ 21 mil.

MACIEL DE AGUIAR
Ouvido pelo CENSURA ZERO sobre a escolha de projetos sobre uma personagem do livro de sua autoria, Zacimba Gaba, pela Secretaria Municipal de Cultura, o renomado escritor capixaba, recentemente indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, afirmou desconhecer o fato. E foi taxativo: “Não estou sabendo e, caso fosse consultado, não daria autorização”.
Indagado sobre o motivo, Maciel afirmou que “esses editais transformam artistas e produtores capixabas em mendigos e pedintes dependentes do estado”. “Estão cometendo um crime contra a cultura capixaba, pois ninguém com 20, 30 ou 50 mil por ano têm condições de viabilizar um projeto que possa atender a sua capacidade inventiva e criativa”, destacou.
Maciel de Aguiar disse que “essa ideia é uma cópia do que vem sendo feito em Salvador, onde o dinheiro público é socializado através de editais, mas o resultado cultural e artístico é insignificante, pois a arte não pode ser uma atividade de mendigos pelo fato dela precisar de censo crítico”. Em contexto geral, o escritor afirmou que “o artista capixaba está sendo manipulado e perdeu a capacidade crítica”, frisando que “um artista sem capacidade crítica não produz cultura e muito menos desenvolve a sua arte, pois vira um dependente do dinheiro público e, sobretudo, um cabo eleitoral do governo [referindo-se às esferas municipal e estadual]”.
GESTÃO ESTADUAL
Maciel defende que, na gestão estadual, a Secult reative os teatros que estão fechados, além de revitalizar os festivais de teatro, dança, música e cinema, que foram extintos, criar plateia, divulgar os espetáculos e fazer o artista circular com os seus shows, exposição e lançamentos de livros. “Os sítios históricos estão destruídos e muitos museus, públicos e privados, estão fechados, abandonados e saqueados”, assinalou.
Ele lembra que, em Vitória, “o Centro Cultural Carmélia está abandonado há dez anos, o Cais das Artes virou um elefante branco e o Teatro Carlos Gomes há uma década fechado, está sendo “restaurado” por mais de 20 milhões [de reais]”. E completa, em tom crítico: “A última reforma custou 300 mil reais. Nem se revestisse as paredes com ouro 18 quilates custaria esse valor”.
Na entrevista ao CZ, Maciel de Aguiar salienta que “a cultura capixaba perdeu o rumo, o artista perdeu a capacidade crítica e o Estado não tem capacidade para gerar cultura, que deve ser uma atividade exclusiva do cidadão; e, por conta disso, está proliferando essa enorme quantidade de artistas mendigos e pedintes dependentes do Estado”.
O OUTRO LADO
O CENSURA ZERO disponibiliza espaço para possíveis manifestações de agentes políticos da Prefeitura de São Mateus e do Governo do Estado sobre os assuntos tratados nesta reportagem.
Havendo retorno, o texto será atualizado.
CENSURA ZERO – AQUI TEM CONTEÚDO! | REDAÇÃO MULTIMÍDIA






