
Nos festejos pelos 481 anos de São Mateus, a Câmara de Vereadores retrocedeu e, sem transparência, resgatou a realização da tradicional sessão solene do aniversário da Cidade no modelo de “festança dos privilegiados”, desta vez a um custo de quase R$ 200 mil.
Aderindo ao ‘espírito de Roboão’, o presidente Wanderlei Segantini, com aval dos outros 10 vereadores, tirou do ‘lago do esquecimento’ as fatídicas edições do regabofe do camarão VG, que ganharam destaque na Imprensa estadual e nacional em 2021 e 2022, quando a Câmara de Vereadores estava completamente rendida ao então Chefe do Executivo.
Ainda se ajeitando na cadeira de presidente da Mesa Diretora, Segantini reativou no Legislativo a prática do uso irresponsável do dinheiro público para a ‘festança dos privilegiados’, o que, até em função da vigilância da Imprensa e a reprovação popular, não se repetiu em 2023 e 2024.
Com menos de nove meses de exercício dos mandatos, os parlamentares atuais rejeitaram, na sessão solene de sábado (13/09), a transparência que a Mesa Diretora anterior passou a dar à sessão solene, realizando a entrega de Títulos e Honrarias da Câmara Municipal diante da Imprensa, com transmissão ao vivo e em local amplo e aberto ao público (auditório do Sesc).
Desta vez, para espanto geral de uma cidade de quase 140 mil habitantes castigada por escândalos de corrupção nos últimos oito anos, Wanderlei Segantini não convidou a Imprensa para a cobertura jornalística, não autorizou a transmissão ao vivo da sessão solene e levou o evento para um cerimonial acessível e com permissão de entrada apenas aos poucos convidados, em Barra Nova.
E mais: os jantares com pratos finos à base de camarão VG e picanha argentina, que foram abolidos nos dois últimos anos da Legislatura 2021-2024, deram lugar a um luxuoso buffet, proporcionalmente, ainda mais caro. O cardápio granfino incluiu até iguarias italianas, francesas, portuguesas e árabes.
O custo total do ‘Regabofe do Bolo da Exclusão’ ficou em cerca de R$ 200 mil, sem incluir os gastos com recursos humanos e estruturais próprios da Câmara de São Mateus.



Indícios de má-fé
O CENSURA ZERO apurou que o escanteamento da Imprensa e a falta de publicidade da sessão solene reforçam os indícios de má-fé, infringindo o que estabelecem dois princípios da administração pública (publicidade e moralidade), já que a sessão solene começou a ser organizada em 22 de julho, com o indicativo de participação de 500 pessoas “privilegiadas”.
Em nenhum momento, a descrição dos convidados e seus agregados faz alusão à cobertura jornalística da Imprensa nem à transmissão ao vivo pelas redes sociais da Câmara Municipal ou pela TV Aberta. A escolha do local com difícil acessibilidade popular deixa claro a exclusão de pessoas do Povo Mateense que quisessem prestigiar a tradicional entrega de títulos honoríficos e honrarias.
A ‘festança dos privilegiados’ com dinheiro público foi planejada nos mínimos detalhes luxuosos, entre eles “56 toalhas longas de tecido para mesas na cor branca, 16 candelabros, 22 tubos de vidro com folhagens, 19 cadeiras estofadas estilo colonial, etc”. A decoração determinou a confecção de “arranjos com orquídeas brancas com uso de musgos” e o cerimonial teve “entrada frontal trabalhada em espelhos orgânicos com luzes de led”.
O requinte do buffet, às custas do contribuinte, foi um tapa na cara da população de São Mateus, que, conforme dados oficiais, tem cerca de 17 mil moradores em situação de extrema pobreza. Com o apoio dos demais vereadores, o presidente Wanderlei Segantini autorizou a excentricidade inimaginável para cerca de 90% dos habitantes do Município.

Iguarias italianas, francesas, portuguesas e árabes
Digna de uma noite de arromba em Dubai, o ‘Rebabofe do Bolo da Exclusão’ desfilou a exigência de “decoração temática do ambiente, concepção/produção de maquete institucional e ornamentação condizente com a solenidade”, passando pelas bebidas “com extrato de nozes de cola e com semente de guaraná paulínia”.
O ápice foi a lista de salgados finos com iguarias italianas, francesas, portuguesas e árabes, com destaque para vol-au-vent de alho poró e geleia de frutas vermelhas, caponata de beringela, tomate confit, coalhada com damasco, gorgonzola, caprese, melba pharma com figo, burratas com tomate confit e pão italian, trufas de salaminho e gongonzola, cheese balls, torres de kibes, esfirras e crostinis, bacalhau com natas, ninho com limão siciliano e com creme de avelã.
E, claro, não podia faltar o camarão VG empanado com molho de alcaparras e seus aliados: risole de camarão, pastel assado de camarão, escondidinho de siri desfiado e siri desfiado gratinado na nata.
O outro lado
A tradicional sessão solene foi feita de maneira tão escondida que a primeira declaração pública referente a ela ocorreu apenas no início da tarde de segunda-feira (13/09).
Afirmando que a noite teria sido marcada “por emoção, reconhecimento e celebração”, a Secretaria de Comunicação da Câmara de São Mateus informou que, ao todo, “foram 99 honrarias concedidas incluindo Títulos de Cidadão Mateense, Cidadã Mateense, Cidadão Benemérito, Cidadã Mateense Ausente, além de diversas Comendas de Mérito e Medalhas de Reconhecimento”.
Sem fazer referência à completa exclusão de jornalistas e veículos de Imprensa, a Secom-CMSM registrou que, “durante a solenidade, os vereadores destacaram em seus discursos o compromisso dos homenageados com a cidade”.
À Imprensa, a Câmara de Vereadores apresentou 272 fotos da entrega dos títulos de cidadania, mas não disponibilizou nenhuma imagem (em foto ou vídeo) do banquete custeado com dinheiro público. Por que isso ocorreu?

Presidente Segantini e outros vereadores
Ainda na segunda-feira (13) à noite, durante a sessão ordinária, a única menção ao evento foi feita de forma tímida [talvez até envergonhada] pelo presidente Wanderlei Segantini, com manifestação do vice-presidente Wan Borges, que já havia sido procurado pelo CENSURA ZERO para esclarecer o mergulho do Legislativo no retrocesso.
O CZ tentou contato por quatro dias consecutivos com o presidente Segantini, que não atendeu às ligações telefônicas. Também não deu retorno às solicitações de entrevistas feitas por meio de mensagens.
A Reportagem conseguiu ouvir os demais membros da Mesa Diretora, vereadores Wan Borges (vice-presidente), Isamara da Farmácia (1ª secretária) e Wap Wap 2º secretário), que disseram que as explicações sobre o ‘Regabofe do Bolo da Exclusão’ deveriam ser dadas pelo presidente Wanderlei Segantini.
Também foram contatados os vereadores Branco da Penal, Leandro Schaeffer e Professora Valdirene, que afirmaram que Segantini estaria apto a explicar e responder a questionamentos sobre a volta da gastança com luxo na Câmara de São Mateus.
A Direção de Jornalismo e Conteúdo do CZ tentou ouvir o vereador Vilmar do Seac, mas as ligações remetiam à caixa postal. Pela fotos, a constatação é de que Vilmar não participou da festança, mas nem isso a Câmara Municipal confirmou. O espaço segue aberto a possíveis manifestações de Vilmar.
O mesmo ocorre em relação aos vereadores Isael Aguilar, Cristiano Balanga e Raphael Barboza com os quais a Reportagem não conseguiu contato.
Havendo retorno, o texto será atualizado.
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NOTA DA REDAÇÃO:
A expressão ‘espírito de Roboão’ empregada no texto, por autonomia editorial, faz alusão ao filho de rei Salomão e neto do rei Davi, e que se tornou o quarto rei de Israel. Roboão foi o primeiro rei de Judá – Reino do Sul, sendo considerado um rei mau e um político negligente, por suas más decisões e por agir em desacordo com princípios morais e éticos, e especialmente desobedecer à Palavra de Deus.
Cercado por conforto e luxo, Roboão cresceu num magnífico palácio de Jerusalém. Tinha tudo o que desejava: roupas finas, banquetes deliciosos e muitos servos à disposição.
Ao chegar ao poder, o povo pediu que abrandasse a carga tributária que seu pai, Salomão [já bastante contaminado na fé], exigia. Roboão consultou os sábios anciãos e eles aconselharam-no a agir com moderação e atender o pedido justo do povo.
Mas, perverso, Roboão decidiu contrariá-los e atendeu a conselheiros usurpadores do dinheiro público. Impôs ao povo um jugo pior do que seu antecessor havia feito no reinado, o que lhe acarretou consequências graves, como a divisão de Israel e a revolta do povo.
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CENSURA ZERO – AQUI TEM CONTEÚDO! | REDAÇÃO MULTIMÍDIA | FOTOS: SECOM-CMSM






