O ex-ministro e advogado Gustavo Bebianno não tinha raiva do presidente Jair Bolsonaro. O sentimento que o perseguia desde que deixou o governo era a decepção de um fã com seu ídolo. Foi o que contou na última conversa com o ‘Estado de S.Paulo’ em um hotel em Brasília na terça-feira (10/03), onde fez reuniões de articulação para sua candidatura a prefeito no Rio pelo PSDB.
Bebianno morreu, aos 56 anos, na madrugada desse sábado (14/03) em seu sítio em em Teresópolis (RJ). No encontro com a reportagem, que ocorreu quatro dias antes de sua morte, o ex-ministro fez elogios ao presidente que ajudou a eleger, mas demonstrou mágoa pelas suposições de que poderia estar envolvido com a facada sofrida por Bolsonaro durante ato de campanha em setembro de 2018 – o boato ganhou força após Bolsonaro dizer, em entrevista, que um auxiliar poderia estar por trás da facada.
“Eu sou muito sensível. Eu sinto a energia das pessoas. Não posso ter me enganado tanto. Eu só enxergava uma pessoa de bom coração, sincera. Acho que ele (Bolsonaro) é assim, mas todo mundo tem luzes e sombras. Eu conheci o pior lado também”, disse o ex-ministro.

APARAR ARESTAS
Na conversa, Bebianno contou sobre a carta que escreveu para Bolsonaro após ser demitido do governo, em fevereiro de 2018. Queria aparar arestas, fechar um ciclo. No texto, o ex-ministro aconselhou o presidente sobre o filho Carlos Bolsonaro, que é vereador no Rio de Janeiro pelo PSC. “Eu disse que Carlos não sabia amar, era nutrido por ódio o tempo inteiro. Ninguém o ensinou a amar. Ele não aprendeu”, contou.
Cópias da carta foram entregues para o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, então chefe da Casa Civil; o general Maynard Santa Rosa, que ocupava o cargo de chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE); e para o ator Carlos Vereza, que se aproximou do presidente e também se tornou seu amigo.
Bebianno, que nunca mais encontrou Bolsonaro pessoalmente ou manteve contato por telefone, queria ter certeza de que o presidente havia lido sua carta. Onyx, segundo contou o advogado, garantiu que Bolsonaro leu o texto. Em um dos trechos, o ex-admirador falava que o presidente, depois de chegar ao poder, estava cercado de energias negativas, que o atrapalham na condução do País.
Para Bebianno, foi após esta carta que Bolsonaro passou a declarar que um ex-assessor poderia estar envolvido na tentativa de seu assassinato. “Isso é uma loucura. Eu estive ao lado dele o tempo inteiro. Abri mão de estar com minha família. Nunca quis nada em troca. Eu acreditava quando ele dizia que queria mudar o Brasil.”
A Carlos é atribuída a saída de Bebianno do governo, com apenas 49 dias de gestão. O então ministro foi demitido em uma crise que eclodiu após ter declarado ao jornal ‘O Globo’ que havia conversado três vezes com o presidente durante uma crise no Planalto. A declaração foi dada para afastar rumores de que estava sofrendo um processo de fritura. Na sequência, Carlos foi à internet dizer que o ministro estava mentindo. Áudios divulgados depois da demissão confirmaram que Bebianno e o presidente mantiveram contato.
ATRITOS COM FILHO DO PRESIDENTE
A relação de Bebianno e Carlos Bolsonaro era conflituosa desde a pré-campanha eleitoral. Na época, o coordenador da campanha evitava fazer declarações sobre o filho do presidente. “Carlos tem ciúmes do pai, mas não resolvia nada na campanha. Tudo sobrava pra mim. Eu era faz-tudo do capitão, que me chamava de para-raio”, disse.
Apesar das restrições de ambas as partes, Bebianno e Carlos permaneceram juntos quando Bolsonaro foi atingido por Adélio Bispo de Oliveira com uma facada em ato de campanha em Juiz de Fora (MG). Enquanto o então candidato passava por cirurgia na Santa Casa da cidade mineira, os dois ficaram lado a lado fazendo orações, às vezes de mãos dadas. Nos dias seguintes, ambos permaneceram ao lado de Bolsonaro durante internação no Hospital Israelita Albert Einstein.
CENSURA ZERO – AQUI TEM CONTEÚDO! | REDAÇÃO MULTIMÍDIA | FONTE: ESTADÃO






