POR MATILE FACÓ*
Já faz um bom tempo desde que me encontrei com aquele lugar, aquele ponto onde as recordações sussurram como um antigo disco de vinil arranhado. Não tem nada de glamouroso nisso, a saudade. É uma coisa suja, amarga, que fica grudada como chiclete no asfalto quente de um verão que não quer acabar.
Foi num desses dias escaldantes, quando o ar estava tão parado que parecia que a cidade inteira estava segurando a respiração, que me vi ali, naquele banco de praça que já não via uma lata de tinta fazia décadas. Era um banco gasto, desbotado, quase tão cansado quanto eu. As crianças não brincavam mais no coreto, e as árvores, outrora tão frondosas, eram apenas lembranças desidratadas do passado.
Os rostos que passavam por mim eram estranhos, alheios, como se eu estivesse num mundo paralelo onde ninguém me conhecia. Mas ali, naquele banco empoeirado, as lembranças me envolveram como um abraço apertado. Era o cheiro do algodão doce na festa junina, o gosto do primeiro beijo atrás da igreja, o som das gargalhadas com os amigos na rua de terra.
Era como se aquele banco fosse uma máquina do tempo, me levando de volta a uma época onde tudo parecia possível, onde a vida estava à minha frente, pronta para ser desbravada. Agora, olhando para trás, vejo que a vida se desdobrou de maneiras que eu nunca poderia ter previsto naquelas tardes de verão.
A saudade é engraçada assim, ela te faz querer voltar a um lugar que não existe mais, a um tempo que já se foi. Ela te faz desejar sentir as mesmas emoções, mesmo sabendo que você não é mais a mesma pessoa. É como tentar vestir um vestido de infância, ele nunca vai servir direito, mas você insiste em tentar.
A cidade mudou, eu mudei, o mundo inteiro mudou. E talvez seja isso que torna a saudade tão agridoce. Ela nos lembra do que já vivemos, do que já fomos, mas também nos mostra que a vida é feita para seguir em frente, mesmo que seja doloroso.
Então, ali, naquele banco de praça, com o sol castigando minhas costas e o som da cidade que segue em frente, eu decidi que era hora de deixar as lembranças descansarem um pouco. Não se pode viver olhando para trás o tempo todo. A saudade é uma companheira traiçoeira, mas também nos ensina que a única direção possível é para a frente, para o desconhecido, para o futuro.
E assim, com um último olhar para o banco de praça, deixei as lembranças ali, onde pertenciam, e segui em frente, pronta para criar novas memórias, novas saudades, e quem sabe, um novo lugar para sentar e refletir sobre tudo isso no futuro.

*MATILE FACÓ, 31 anos, nasceu e mora em Fortaleza-CE. É autora do ebook Enigmas e Amizade -uma obra cativante voltada para o público infantojuvenil, lançado na plataforma Amazon; e participou de diversas antologias literárias. É também blogueira e escritora de crônicas e poesias em seu blog pessoal, explorando temas profundos e inspiradores sobre a jornada humana. | Instagram perfil pessoal: @mafilefaco Instagram perfil literário:@meu.universo.inteiro
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