POR ADRIANA PIN*
Era mesmo assim. Dois olhos arregalados a observar tudo. Perdia-se entre a calçada e o ambulante a vender o portátil cortador de verduras. Na verdade, não sei se era realmente isso que via. A data e o nome no cimento ainda molhado mais pareciam a marca pessoal de um artista que esculpiu o seu tempo e o seu espaço. As cenouras, as beterrabas e os repolhos daquela banca de esquina pintavam, por sua vez, uma moderna tela de um colorido secundário, vivo como o sol do meio-dia.
Sentada no banco de concreto, à espera do ônibus, sentia uma necessidade incontrolável de escrever. Um pedaço de papel, lápis ou caneta era o que desejava naquele momento. Do garoto e seu carrinho de picolé, ia abstraindo versos, estrofes e rimas que se desmetrificavam de sua mente e eram levados prosamente pelo vento, ou ainda esquartejados pelo açougueiro do velho Mercado Municipal, ali em frente. Um poema social, mas à segunda vista, os múltiplos sabores, a cada reflexo girassolar, portavam-se como espelhos a revelarem aquele pequeno vendedor. O ônibus! O sinal!…
À tarde, ia até a praça do Mirante. Lá, muitas vezes, encontrava o Vale, parecendo compor uma poesia moderna sem ironia, surrealista talvez. Então voltava feliz para sua casa, caminhando.
No meio daquele vaivém de fim de expediente, um cachorro estava perdido; uma mulher chorava dentro de um fusca azul; um velho tartamudeava consigo mesmo. E ia condensando cada expressão através do olhar interpretativo, elaborando suas personagens a partir daquele estreito mundo em que vivia.
Ao dormir, no entanto, sentia por não ter registrado tudo aquilo. Seus sonhos se tornavam pesadelos e as personagens culpavam-na pelo anonimato de mais um dia.
Na manhã seguinte, o banco de concreto e o ônibus.
*ADRIANA PIN é professora de Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa no Ensino Médio, Graduação e Pós-Graduação do IFES, doutora em Letras pela UFES e pesquisadora das relações entre Literatura e Indústria Cultural, do Ensino de Literatura e da Leitura literária no Ensino Médio. | Contato: pinadriana5@gmail.com
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