Maciel de Aguiar, aos 50 anos de literatura: ‘Sou um escritor realizado’

1747
ACERVO PESSOAL - Maciel de Aguiar com Vinícius de Moraes, na década de 1970.

ENTREVISTA ESPECIAL

Ao completar 50 anos de literatura, o escritor Maciel de Aguiar, ex-subsecretário e ex-secretário de Estado da Cultura do Espírito Santo, em três governos, autor de 141 livros, dentre algumas obra de grande sucesso como PELÉ THE KING OF FOOTBALL, sobre Edson Arantes do Nascimento, o ‘rei do futebol’, publicado em vários idiomas, e, ainda, NIEMEYER O GÊNIO DA ARQUITETURA, sobre Oscar Niemeyer, um dos maiores arquitetos do mundo, também de repercussão internacional, fala, nesta entrevista, de suas realizações e de novos projetos.

Escritor Maciel de Aguiar: “Hoje, estou escrevendo um novo livro com o título “As canções que você fez para mim”, com base em outro ‘rei’ [Roberto Carlos]”.

CENSURA ZERO – São Mateus teve prefeito médico, farmacêutico, engenheiro, fazendeiro, comerciante, empresário, etc. mas nunca teve um prefeito ligado à Cultura. Como explicar isto?

Maciel de Aguiar – São Mateus deu vários governadores ao Estado e todos eram cultos como Graciano Neves, Constante Sodré, Antônio Aguirre e Jones dos Santos Neves. E tivemos prefeitos como Aldemar de Oliveira Neves, Roberto Silvares, Otovarino Duarte Santos, além do fundador da Ufes, Ceciliano Abel de Almeida, e promotores, juízes e desembargadores como Eduardo Durão Cunha, Arnaldo de Aguiar Bastos e o Desembargador Santos Neves. Assim, a cultura sempre esteve presente na vida dos mateenses.

No passado, São Mateus dominava a política no Estado. Porque perdeu o poder?

Maciel de Aguiar com Jorge Amado. Década de 1970.

Maciel – Foram contingências naturais. As famílias coroadas de São Mateus, durante a escravidão, tinham tentáculos na Corte do Brasil. Tivemos dois títulos nobiliários – Olindo Gomes dos Santos Paiva, Barão de Thimbohy, e Antônio Rodrigues da Cunha, Barão dos Aymorés. Além de muitas famílias que migraram para outros estados e viraram nomes de ruas, praças e avenidas no Rio de Janeiro e São Paulo, como os Santos Neves, os Graciano Neves, os Abel de Almeida, os Faria Lima e os Abreu Sodré.

Você é um dos maiores intelectuais do Estado, não acha que poderia dar uma maior contribuição à gestão pública de São Mateus?

Maciel – Há muito estou contribuindo. Criamos o Centro Cultural Porto de São Mateus/CCP, quando o Teatro Anchieta realizava grandes espetáculos, e, depois, como secretário de Estado da Cultura, ocasião em que o Porto de São Mateus foi restaurado e realizamos a ópera O Guarani, como um dos mais importantes eventos das comemorações dos “500 Anos do Descobrimento do Brasil”, que ainda deve fazer parte da memória afetiva de muita gente. São realizações que fazem parte da História.

Na época, São Mateus era conhecida como a “Capital Cultural do Espírito Santo”.

Maciel – Criamos o Festival de Verão do Porto, o Festival Nacional de Teatro e era comum encontrar artistas como Dina Sfat, Tônia Carrero, Dercy Gonçalves, Chico Anysio, João do Vale, Luiz Melodia e outros artistas do eixo Rio-São Paulo se apresentavam em São Mateus. O Teatro Anchieta foi fechado depois que saí da presidência do CCP. Foi uma grande perda!

E nunca mais tivemos grandes espetáculos…

Maciel – A realização dessas grandes peças em São Mateus havia virado rotina. Lembro-me que A Gazeta publicou: “Do jeito que as coisas estão, Vitória será subúrbio cultural de São Mateus”, mas a nossa intenção era fazer gestão com competência.

Maciel de Aguiar com José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura. Década de 1980.

Mas isto também deve ter despertado muita incompreensão, para não dizer inveja!

Maciel – É possível! Mas na década de 1980 a cidade de São Mateus respirava cultura e os hotéis e restaurantes viviam lotados com turistas e moradores dos municípios vizinhos que vinham assistir as grandes peças só vistas nos teatros do Rio e São Paulo.

E muitos artistas andavam tranquilamente pelas ruas.

Maciel – Vários artistas famosos dividiam as calçadas como os moradores. Tônia Carrero, maior atriz brasileira comprava beijus no Mercado Municipal. Chico Anysio queria transformar o casario do Porto em um estúdio da TV Globo, para gravar os seus programas, mas o prefeito da época não deixou. Chico me disse: “Ele está com medo de você virar prefeito!” E a cidade tinha pouco mais de cinqüenta mil habitantes.

E existia muito mais cultura!

Maciel – Depois, fui secretário de Estado da Cultura do Espírito Santo, restauramos o casario do Largo do Chafariz, que, hoje, lamentavelmente, voltou a ficar abandonado. É um crime contra a memória e a história de São Mateus e do Estado! O Sítio Histórico do Porto vem sendo negligenciado, por certo para atingir o secretário responsável por sua restauração. Mas é fácil recuperá-lo e mantê-lo, pois está no eixo Rio/São Paulo/Salvador, de maior fluxo turístico do Brasil e há dois quilômetros da BR 101.

Quando você foi secretário de Estado da Cultura, realizou um grande evento que teve repercussão nacional, a ópera ‘O Guarani’. Como foi aquela superprodução?

Maciel – Recentemente, quando estive secretário Municipal de Cultura de Vila Velha, fizemos a programação cultural da Festa da Penha, que é o “terceiro maior evento mariano do Brasil”, para um público de dois milhões de pessoas, segundos a Mitra Diocesana de Vitória. Mas, em 2001, realizamos a ópera O Guarani, no Porto de São Mateus, dia 7 de abril, para 40 mil pessoas, e, dia 23 de maio, em Vitória, para 80 mil pessoas. Esta ópera seria realizada na Prainha, mas uma briga política inviabilizou o evento em Vila Velha.

O Guarani contou com os melhores cantores e músicos clássicos do Brasil e ainda teve a participação de Cid Moreira, como narrador. Foi, realmente, ‘o espetáculo’!

Maciel – Cid Moreira recebeu uma determinação pessoal de Roberto Marinho, que me recebeu em sua sala, na Rede Globo, e, gratuitamente, também nos ofertou dezenas de inserções de trinta segundos cada, em Rede Nacional, no Fantástico e no Jornal Nacional. Quando a mídia foi ao ar, como era o secretário de Estado da Cultura, fizeram inúmeras denúncias ao Ministério Público e a Assembléia Legislativa queria abrir uma CPI para apurar quanto estávamos gastando em publicidade. Não gastamos um centavo com a Rede Globo. No Espírito Santo fazer sucesso é crime!

Maciel de Aguiar com Chico Buarque de Holanda. Década de 1970.

E você também fez investimentos privados no Porto.

Maciel – Construímos e mantivemos, com recursos próprios, dois museus no Porto, o ÁfricaBrasil Museu Intercontinental, com recortes das lutas dos negros contra o sistema escravocrata, além de mascaras e escultura africanas que resgatam a importância da arte africana no surgimento do cubismo e da arte moderna.

Conta-se que este é o maior acervo da América Latina!

Maciel – Possivelmente! Mas existe muita campanha contrária. Tanto contra o acervo como contra a arte africana que influenciou a grandes criadores universais como Pablo Picasso e Amedeo Modigliani. A idéia original deste museu não é minha, mas de dois grandes amigos, Jorge Amado e Darcy Ribeiro. Participamos de exposições na Europa e Estados Unidos e fizemos uma grande exposição no Senado Federal, em Brasília.

E o outro museu de sua propriedade que fica no Porto?

Maciel – Também instalamos, com recursos próprios, o Museu Imperial de São Mateus, com um acervo do mobiliário europeu das montanhas capixabas, além de objetos do Primeiro e Segundo Reinados. Gastamos cerca de 50 mil reais por mês do próprio bolso para manter esses dois museus. Hoje, ambos estão fechados!

Você foi amigo de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Oscar Niemeyer, Jorge Amado, Darcy Ribeiro, José Saramago, Rubem Braga, João do Vale e continua amigo de artistas como Chico Buarque, Ziraldo, Fernanda Montenegro, Darlene Glória e Fernando Gabeira, dentre outros grandes nomes da inteligência nacional. Como foi sair de São Mateus para viver uma aventura na cidade grande?

Maciel – Acho que o destino me contemplou com mais do que mereço! Foi um enorme prazer conviver grandes intelectuais brasileiros, os maiores nomes de nossa Cultura contemporânea, devotamos recíprocas amizades e, confesso, que procurei aprender algumas boas lições, sobretudo da arte de escrever com o meu mestre Rubem Braga. Depois, retornei a São Mateus movido por uma espécie de saudade sociológica.

Maciel de Aguiar ladeado por Fernando Torres e Fernanda Montenegro. Década de 1990.

E a exposição ‘MACIEL DE AGUIAR 50 ANOS DE LITERATURA’. Como será?

Maciel – Contará a história de cinco décadas da arte de um menino que queria ser escritor. E, depois de 50 anos, faria tudo com a mesma consciência! Poderia escolher ser alguém mais útil à sociedade, como advogado, médico, promotor, juiz, professor, jornalista, etc. Mas preferi uma profissão que não é regulamentada e não se aprende nas escolas e muito menos nas universidades!

E o que veremos nesta exposição?

Maciel – Tentará contar boa parte desses 50 anos de literatura com fotos, documentos, objetos, cartas, cartazes, caricaturas, depoimentos e até o mimeógrafo com o qual fiz a impressão, na década de 1970, do que escrevi e depois reuni nos quatro volumes de Os anos de chumbo, além das máquinas de escrever com as quais também escrevi os 141 livros que compõem a minha obra.

E onde a exposição será realizada?

Maciel – Vamos começar pelo Rio de Janeiro, onde morei nas pensões de quinta categoria da Lapa, Catete e Gamboa e escrevi boa parte de Os anos de chumbo. Após, realizaremos a exposição em Vitória, Ponte Nova, São Mateus e a exposição ficará em definitivo em Conceição da Barra, onde também vamos lançar a terceira edição do livro Conceição da Barra nasceu de um beijo.

Você é um pioneiro na pesquisa de personagens negros que enfrentaram a escravidão e escreveu 40 livros com base na oralidade. Como foi este trabalho inédito?

Maciel – Há cinco décadas, pesquisar a história de personagens “esquecidos” pela historiografia oficial não era moda, e escrevi 40 livros com relatos dos negros que habitaram o Vale do Cricaré. Hoje, muitos estudantes negros, para efeito das cotas nas universidades, consultam esses livros e alguns descobrem a história de seus antepassados. Portanto, apesar dos boicotes que esses livros sofrem da academia, da historiografia oficial e até de muitos grupos de afro-descendentes, a minha vida está ligada à cultura e à história de muitos heróis negros que ainda não emprestaram os seus nomes para ruas, praças ou avenidas, nem mesmo em São Mateus.

Maciel de Aguiar com Darlene Glória. Década de 1990.

O que o levou a pesquisar e a escrever sobre esses ‘negros esquecidos’?

Maciel – No início da década de 1960, a versão que lia nos livros escolares sobre a escravidão era muito diferente da versão que ouvia, nos fins de tarde, no Porto de São Mateus. Alí, conheci Balduíno Antônio dos Santos, Manoel Sapucaia, Zoroastro Valeriano Rodrigues e José Antônio Jorge que diziam que só podiam me confidenciar as lutas dos quilombolas contra os poderosos senhores de São Mateus se eu participasse de uma cerimônia bantu, conhecida como Cabula, praticada no camucito, na mata. Acho que fui o único branco convidado a assistir àquela cerimônia milenar.

E como foi essa experiência?

Maciel – Sou de formação católica e minha avó paterna, Lavínia da Boa Morte Aguiar, era evangélica. Então, a religião em minha família era um processo de enorme respeito aos contrários. Assim, fui assistir à cerimônia praticada pelos negros cabindas e realizada na África há mais de dois mil anos. Com isto, os mestres me contaram as histórias e comecei a escrever a coleção História dos Quilombolas, 40 livros, que me dediquei por mais de 30 anos e nunca esqueci o que os báculos, tatás e camanás me revelaram.

Pode contar alguma coisa?

Maciel – Posso assegurar que tudo foi surpreendente. Anos depois, com os livros publicados, acendi um charuto cubano, que Oscar Niemeyer de deu, e abri uma garrafa de vinho. Era uma passagem de ano, estava sem dinheiro, os livros sobre esses heróis negros não vendiam, eram boicotados pelas elites acadêmicas, negligenciados por grupos de afro-descendentes pelo fato de me desfiliar de um partido político e, pior, a minha editora precisava pagar à gráfica. Assim, após umas boas talagadas e suaves baforadas, comecei a reclamar em voz alta, na sala, aleatoriamente, como se estivesse falando com esses negros e fiquei, digamos, muito bravo.

E o que você disse?

Maciel – Disse o seguinte: “Dediquei a minha vida pesquisando as suas histórias e escrevi 40 livros com base na oralidade e vocês não me ajudam contra os que querem apagar as suas histórias, os que boicotam os livros nas escolas, os que nos derrotam nos editais, nos difamam, nos caluniam e vocês nem ao menos ajudam a vender esses livros! Que porra foi essa que vocês fizeram comigo, me colocaram nessa aventura, me fizeram dedicar a vida para contar as suas histórias e hoje estou fodido, sem dinheiro, sem conseguir pagar a gráfica e sendo boicotado. Onde vocês estão, porra?

E aí?

Maciel – Em seguida, fui dormir levado pelo vinho e pelo charuto.

Maciel de Aguiar com Chico Buarque de Holanda. Década de 1980.

E o que aconteceu?

Maciel – Ainda não posso revelar tudo, mas estou escrevendo um livro contando esta história! Não obstante isto, posso dizer que, uma semana após este desabafo etílico, fui lançar um livro na Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador. E, à noite, Oldemário Touguinhó, que foi meu editor no Jornal do Brasil, me ligou e passou o celular para uma pessoa, que disse: “Aqui é o Édson, entende!? Quero que você escreva o livro do Pelé”. Levei um susto!

Era o Édson Arantes do Nascimento?

Maciel – O próprio! E, como não acreditei, pedi para falar com Touguinhó, e perguntei: Que sacanagem é essa, amigo? Ele respondeu: O Édson quer que você escreva um livro sobre o “Rei Pelé” para ser lançado na Copa do Mundo da Alemanha. Pensa na realização profissional e financeira, amigo!.

E você conhecia Pelé?

Maciel – Não tinha a menor ligação a não ser assistir alguns jogos no Maracanã.

Maciel de Aguiar com Gilberto Gil. Década de 1990.

E porque ele lhe pediu para escrever o livro?

Maciel – Ele não sabia explicar e, hoje, também não se lembra que me pediu para escrever o livro, mas, à época, autorizou a publicação!

Impressionante! E o livro foi escrito em quanto tempo?

Maciel – Escrevi em seis meses. A primeira edição foi em alemão, lançada na Copa do Mundo da Alemanha, com o título PELÉ DER FUSSBALLKÖNIG. Depois, o livro foi traduzido para o inglês, francês, espanhol, português, russo e está em mais de 150 países. Agora, será editado em árabe para a próxima Copa do Mundo do Catar.

Por que Pelé lhe escolheu se ele tinha grandes escritores à disposição?

Maciel – Até hoje faço esta pergunta! Só sei que reclamei que havia dedicado a vida escrevendo os livros dos negros desconhecidos, que não vendiam, e que fui escolhido para escrever o livro sobre o negro mais conhecido do Planeta, e que mais vende! Com o lucro do livro do Pelé pagamos os livros dos negros desconhecidos e até sobra um dinheirinho para beber bons vinhos e fumar os saborosos charutos cubanos!

Em 2017, Maciel de Aguiar divulgou ‘Pelé, Rei do Futebol’, no Domingão do Faustão:

E o que lhe deu maior prazer nesses 50 anos de literatura?

Maciel – Dediquei grande parte de minha vida para pesquisar e escrever sobre os quilombolas com a mesma satisfação com que escrevi mais de uma centena de outros livros. Hoje, estou escrevendo um novo livro com o título “As canções que você fez para mim”, com base em outro “rei”.

Será que é sobre quem estou pensando?

Maciel – Possivelmente! Mas não vai depender da autorização deste outro “rei”. Mesmo assim, vou procurá-lo para falar das histórias de pessoas comuns que viveram “grandes emoções” ao ouvir as suas músicas e acham que essas músicas foram feitas para elas e, sobretudo, que recordam de muitas paixões e inesquecíveis acontecimentos em suas vidas. Estou acreditando muito neste livro.

Ser escritor tem sido, financeiramente compensador?

Maciel – Os livros sobre os anos de chumbo são testemunhos da extraordinária aventura de minha geração. Os livros os quilombolas são compromissos que assumi ainda na juventude com os negros que pediram para eu contar as suas versões. Os demais livros, como Oscar Niemeyer, Rubem Braga e outros, são reconhecimentos pessoais. O livro sobre Pelé faz enorme sucesso em qualquer país do mundo e continuará vendendo por mais 100 anos para eu poder comprar bons vinhos e fumar saborosos charutos cubanos. Então, nesses 50 anos de literatura, posso assegurar que, escrevendo sobre desconhecidos ou conhecidos, sou um escritor realizado!

CENSURA ZERO – AQUI TEM CONTEÚDO! | REDAÇÃO MULTIMÍDIA | EDIÇÃO: ANDRÉ OLIVEIRA | FOTOS: ACERVO PESSOAL MACIEL DE AGUIAR

MAIS SOBRE O ESCRITOR MACIEL DE AGUIAR: www.macieldeaguiar.com.br

COMENTE ESTA NOTÍCIA!